As eleições brasileiras sob o Escudo das Américas

 Plano de combate a narcotraficantes vai ao centro do debate político e ameaça soberania no próximo governo

Lula em discurso na ONU (UN Photo/Loey Felipe)

 Escudo das Américas é o nome do projeto estadunidense que tomou o debate sobre a segurança pública e marca a influência  que a geopolítica externa passou a exercer com destaque no cenário político brasileiro.

Os Estados Unidos e 14 países da América Latina e do Caribe anunciaram na terça-feira (22/9), em Nova York, sanções contra 24 organizações criminosas. Entre as quais, PCC e Comando Vermelho (CV). É este grupo que se chama Escudo das Américas.

 O Brasil não aderiu à articulação, e o tema entrou na campanha presidencial a onze dias do primeiro turno, em 4 de outubro.

O Escudo é uma iniciativa de cooperação em segurança para integrar inteligência, controle de fronteiras e combate ao narcotráfico, ao crime organizado transnacional e ao terrorismo. Iniciativa de cooperação, sob o tacão da retomada da Doutrina Monroe por Donald Trump, significa pressão política e econômica, com risco à soberania. Funciona como mecanismo de coordenação política e de segurança, não como tratado de defesa coletiva.

Donald Trump lançou a aliança em 7 de março, no campo de golfe Trump National Doral, em Miami. Doze governos alinhados a Washington haviam aderido até junho. O lançamento veio dois meses depois da captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por forças americanas, em 3 de janeiro.

Hoje são 14 países: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago. Brasil e México ficaram de fora.

A declaração prevê congelamento de ativos, restrições de imigração e de vistos para membros e apoiadores das organizações, e responsabilização criminal de quem der apoio material ou logístico. Ela não altera automaticamente a legislação brasileira nem obriga Brasília a enquadrar PCC e CV da mesma forma. Os signatários também vão pedir à OEA uma resolução baseada no Tratado do Rio, de 1947, fórum em que Brasil e México costumam se opor a iniciativas conduzidas por Washington.

A lista inclui o Cartel de Los Soles. O nome é usado na Venezuela para a corrupção de militares, e o Departamento de Justiça dos EUA reduziu a menção ao grupo no indiciamento final de Maduro, observou a Agência Pública em reportagem sobre o tema.

Efeitos na região

O Escudo se soma a acordos militares bilaterais. Segundo o sítio El Diario, o Paraguai aprovou em março um acordo que protege soldados americanos da Justiça paraguaia e permite a circulação de veículos e armamentos sem inspeção. Em Brasília, a preocupação envolve a tríplice fronteira, onde fica Foz do Iguaçu. Um procurador do Ministério Público do Paraná ouvido pela reportagem diferenciou a ampliação de instrumentos de pressão de uma intervenção direta em território brasileiro.

Em paralelo, o Comando Sul dos EUA faz ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental desde setembro de 2025. Segundo a AFP, mais de 200 pessoas morreram, e o governo Trump não apresentou provas conclusivas de que os barcos atingidos tinham ligação com o tráfico. Organizações de direitos humanos e analistas jurídicos afirmam que as ações podem configurar execuções extrajudiciais. Os ataques começaram antes do Escudo.

Para o ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional dos EUA Fulton Armstrong, ouvido pela Pública, classificar criminosos como terroristas não funciona e aumenta tensões entre vizinhos. O especialista chileno Carlos Solar, do Royal United Services Institute, disse à BBC que a doutrina de segurança americana busca conter potências rivais, com a China como alvo, segundo o IHU.

Impacto no Brasil

A Abin classificou como crítico o risco de interferência americana, em alerta que veio a público na semana passada. As sanções de julho contra pessoas e empresas brasileiras ligadas ao PCC marcaram uma mudança de fase.

Na campanha, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reuniu-se com Trump em 26 de maio. A designação de PCC e CV como terroristas foi anunciada em 28 de maio. Flávio atribuiu a decisão à sua ação e disse que ela permitirá a asfixia financeira das facções. Ele prometeu incluir o Brasil no Escudo das Américas, se eleito. Segundo a Gazeta do Povo, a decisão americana foi incorporada à campanha do senador.

Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) também apoiaram a classificação. Zema disse que a ameaça à soberania vem de PCC e CV. Renan Santos (Missão) não indicou apoio.

O presidente Lula (PT) marcou posição firme em discurso na ONU, no dia 22/9. 

"O Brasil não cabe no quintal de ninguém",

 declarou.

 O governo defende cooperação internacional, combate à lavagem de dinheiro e controle do fluxo de armas, sem intervenção externa. O principal oponente na disputa eleitoral tenta impedir na justiça que o discurso seja usado na propaganda oficial. Não há consenso sobre o discurso como peça de campanha.


As leituras sobre influência externa na Europa acompanham a visão do alemão Deutsche Welle. O veículo associa as ações dos EUA ao favorecimento de Flávio, sustentando que a pressão americana é real.

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