Países fecham embaixadas alegando ameaça e insegurança após indícios de interferência em favor de Bolsonaro
| (Foto: Luís Dantas/divulgação) |
As embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália no Brasil suspenderam o atendimento presencial em todas as suas representações diplomáticas nesta sexta-feira (2/10), alegando questões de segurança. A decisão, anunciada a dois dias do primeiro turno das eleições gerais, gerou preocupação no Itamaraty e no Palácio do Planalto.
A Embaixada dos Estados Unidos em Brasília e os consulados em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Belo Horizonte suspenderam os serviços consulares presenciais, incluindo a emissão de vistos e entrevistas agendadas. Em comunicado, o governo americano afirmou que cidadãos que precisarem de assistência emergencial não devem comparecer aos prédios diplomáticos, mas sim entrar em contato pelos canais de plantão.
Austrália cita terrorismo ao fechar embaixada
Pouco depois do anúncio americano, a Austrália informou o fechamento de sua embaixada em Brasília. O comunicado do governo australiano citou "preocupações com a segurança" e recomendou que seus cidadãos evitem não apenas a embaixada e os consulados australianos, mas também as instalações diplomáticas dos Estados Unidos no Brasil e áreas adjacentes.
A Austrália foi além: em nota publicada no site oficial Smartraveller, o governo australiano mencionou explicitamente o risco de "terrorismo" e a proximidade das eleições brasileiras.
O texto alerta que "terroristas podem ter como alvo áreas turísticas ou outros locais frequentados por estrangeiros e onde grandes multidões possam se reunir", e recomenda "extrema cautela no Brasil devido à ameaça de crimes violentos".
Ameaça aos Estados Unidos
Nenhum dos dois governos detalhou qual ameaça específica motivou as decisões, nem informou quando o atendimento presencial será retomado. O Departamento de Estado americano não informou a previsão de reabertura e limitou-se a dizer que a gestão de Donald Trump "tem máxima prioridade à segurança e à proteção dos cidadãos americanos".
Segundo a agência Reuters, a orientação americana teria sido motivada por uma ameaça recebida pela embaixada, mas não há detalhes sobre a natureza dessa ameaça. Funcionários das missões americanas no Brasil foram instruídos a permanecer em casa nesta sexta-feira.
A Polícia Federal pediu reforço no policiamento da região das embaixadas em Brasília, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. A medida foi tomada após o anúncio dos fechamentos.
Não há registros de que outras embaixadas ou consulados no Brasil tenham adotado medida semelhante até a tarde desta sexta-feira. Não foram encontradas informações oficiais de representações de outros países que tenham anunciado fechamento de prédios diplomáticos ou suspensão de atendimento em solidariedade ou por precaução.
Five Eyes
Austrália e Estados Unidos mantêm uma parceria de inteligência chamada Five Eyes (Cinco Olhos), que também inclui Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia, construída desde 1946. O acordo prevê cooperação em áreas como segurança, inteligência e defesa. A proximidade entre os dois países pode explicar a rapidez com que a Austrália seguiu a decisão americana, mas não há confirmação oficial de que as medidas tenham sido motivadas pela mesma ameaça.
* Após a publicação desta matéria, o governo do Canadá, em seu site oficial, recomendou cautela aos canadenses no Brasil. Sugeriu que evitassem aglomerações e manifestações políticas, por risco à segurança.
Interferência dos EUA nas eleições no Brasil
As suspensões ocorrem em um contexto de tensão política. Na última quinta-feira (1º/9), uma suspeita de bomba mobilizou a polícia nas proximidades do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Além disso, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e especialistas vinham alertando sobre possíveis novas interferências do governo americano na eleição brasileira.
Segundo jornais brasileiros e estrangeiros, o presidente Donald Trump afirmou na quinta-feira que está acompanhando "muito de perto" as eleições no Brasil. "O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante", afirmou. A declaração, somada ao fechamento das embaixadas, alimentou temores de interferência americana no pleito em favor do candidato Flávio Bolsonaro (PL).
Recursos dos EUA contra o STF
Paralelamente ao fechamento das embaixadas, veio à tona que o governo dos Estados Unidos destinou US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,1 milhões) a um projeto intitulado "Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil", que financiaria grupos da sociedade civil contrários ao que classifica como excesso de atuação judicial e censura por parte do Supremo Tribunal Federal (STF).
Os recursos foram alocados pelo Congresso americano ao Fundo de Direitos Humanos e Democracia (HRDF), controlado pelo Departamento de Estado, e fazem parte de um pacote mais amplo de US$ 176,9 milhões distribuídos em 43 projetos pelo mundo. A informação, publicada pelo jornal britânico The Guardian, levou a Advocacia-Geral da União (AGU) a acionar a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República para investigar o caso.
Grupo Rockbridge
No mesmo período, ganhou força a suspeita de envolvimento da Rockbridge Network com a campanha do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). A instituição é uma rede conservadora de grandes doadores cofundada em 2019 pelo vice-presidente americano J.D. Vance e pelo empresário Chris Buskirk.
O grupo tem uma empresa registrada nos EUA, a Rockbridge Brazil LLC, que manteve contatos com empresários brasileiros. A eles foi oferecida proposta de filiação através de contribuições anuais de US$ 500 mil ou US$ 1 milhão para um "fundo de capital de risco político".
Os recursos seriam voltados a mídia, formação de jovens e atuação legislativa. Documentos obtidos pela Folha de S.Paulo indicam que integrantes do grupo prestaram consultoria à campanha de Flávio, incluindo relatórios de monitoramento e orientações sobre infraestrutura de inteligência artificial. De acordo com o jornal, também teria participado da escolha do imóvel que sedia o comitê eleitoral de Bolsonaro em São Paulo.
Suspeita de financiamento e militância ilegais
O PT acionou o STF pedindo investigação sobre possível financiamento estrangeiro e atuação digital em favor do candidato, citando nominalmente a Rockbridge.
Ainda de acordo com a reportagem, a Rockbridge, após negar operações no Brasil, admitiu que a empresa foi criada, alegando que o projeto "não prosseguiu, nunca recebeu recursos, entrou em operação ou foi utilizada para qualquer atividade empresarial", nem tinha intenção política.
A assessoria de Flávio Bolsonaro também negou que a campanha tenha recebido verba ou estrutura estrangeira, prática vedada pela legislação eleitoral brasileira. O empresário Tallis Gomes, que confirmou integrar a Rockbridge nos EUA, classificou as acusações como "cortina de fumaça" e anunciou que tomaria medidas judiciais contra quem o associasse à intermediação de financiamento estrangeiro.
O Itamaraty não havia se pronunciado oficialmente sobre os fechamentos até a publicação desta reportagem. Fontes do ministério relacionaram a decisão de Trump às eleições, mas reforçaram que o pleito transcorre com "normalidade".
(com informações também da Agência Brasil)
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