O nó tático da extrema-direita na esquerda

 Articulação da direita e da extrema-direita era conhecida e venceu a figura mitológica de Lula na composição do Congresso

Lula e Bolsonaro (Blog do Lívio Lmarca/arte sobre fotos)

A explicação mais consistente para o primeiro turno de 2026 não está nos candidatos, e sim no desenho da estratégia. A direita tratou o Congresso como prioridade e construiu a partir dele; a esquerda tratou o Executivo como ponto de apoio para todo o resto, apostando que nomes fortes puxariam votos para o Legislativo em arranjos estaduais. A estratégia do PL funcionou. A do PT, falhou.

O que a tese acerta: prioridade anunciada e executada

O foco no Congresso foi declarado com antecedência. Em entrevista à Oeste, publicada antes das municipais de 2024, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o partido faria a maior bancada do Senado. Em julho de 2024, o senador Magno Malta afirmou que a campanha municipal servia de preparação para 2026. Em 30 de março deste ano, Valdemar projetou cerca de 25 senadores. O resultado sustenta a coerência entre discurso e prática: 121 deputados, contra 99 em 2022, e 28 senadores, 19 deles eleitos agora. Não era segredo.

A aposta tem um limite que o próprio Valdemar reconheceu: sem vencer a presidencial, o partido não consegue eleger o presidente do Senado. Dentre tantos paradigmas eleitorais, este seria mais um, dada a maioria da direita na Casa. O resultado do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula por 47,03% a 45,16%, abateu o Planalto, mas Lula não se dará por vencido até o resultado do segundo turno, emé 25 de outubro.

A maior bancada na Câmara não chegou à maioria. São 121 de 513 deputados, ou 24% das cadeiras. A federação PT-PCdoB-PV tem 88 deputados e a União-PP, 87. Qualquer maioria dependerá de alianças. As negociações, porém, são mais difíceis. A extrema direita, convicta no ataque aos projetos da esquerda, cresceu sobre a bancada do Centrão.

A esquerda e o Executivo: o desarranjo foi dos dois lados

Do lado do PT, a aposta no Executivo rendeu bancada estável: 70 deputados, contra 69, e 9 senadores, podendo chegar a dez se Wellington Dias, do Piauí, deixar o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, e retormar o lugar ocupado por Jussara Lima, do PSD.

Minas Gerais mostra o custo dos arranjos estaduais. O partido não planejava candidato próprio; o senador Rodrigo Pacheco, do PSD, recusou a proposta petista. Marília Campos, a alternativa de maior apelo eleitoral dentro da agremiação, preferiu o Senado, se elegendo. Patrus Ananias, a solução da velha guarda em momento de apelo a mudanças, com 26,34% dos votos válidos perdeu no primeiro turno para o senador Cleitinho, do Republicanos.

A situação não foi pior porque o vencedor não apoiou Bolsonaro. O PL fechou com Flávio Roscoe, que teve 6,97%.

Cleitinho conquistou 55,40% dos votos, após uma desistência e a volta à disputa na última semana de registro. Flávio Bolsonaro venceu em Minas, com 48,24% dos votos, contra 43,33% para Lula. Havia a expectativa da vitória da esquerda no segundo maior colégio eleitoral, mesmo que por pequena margem. Seria a compensação pela derrota certa no rduto de maior eleitorado, São Paulo.

O que a estratégia não explica: Rio e pesquisas

O Rio é um caso em separado a ser avaliado. A última pesquisa da Quaest para o governo do Rio dava Eduardo Paes (PSD) com 49% dos válidos contra 40% de Douglas Ruas (PL). A urna deu 49,27% a Ruas e 42,76% a Paes. Ruas atrelou seu nome ao de Bolsonaro. O PL elegeu os dois senadores do estado.

Ruas pode vencer no primeiro turno caso os votos dados a Anthony Garotinho, do Republicanos, forem anulados. Com candidatura sub judice, ele decidiu não recorrer da anulação. O desfecho sobre o destino dos 3,17% votos obtidos depende de decisão do plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O erro das pesquisas sobre a Presidência também pede explicações. O Datafolha colocava Flávio em 42% e a Quaest, em 45%, contra os 47,03% das urnas . O próprio Lula declarou após o resultado que esperava vitória no primeiro turno.

O "pobre de direita" no segundo turno

A tese estratégica não diz nada sobre quem vota, e é aí que ela precisa de um complemento. No Datafolha de 1º de outubro, entre quem ganha até dois salários mínimos, Lula tinha 58% contra 34% de Flávio no segundo turno simulado. Flávio liderava nas faixas de dois a cinco salários (56% a 38%) e acima de cinco (55% a 40%).

Cerca de um terço dos mais pobres preferia o candidato do PL. É uma minoria expressiva, que sustenta a ideia de que o eleitor popular de direita existe e é numeroso. O estrato é habitualmente achincalhado pela militância da esquerda. A campanha lulista deve se atentar para os pensamentos desta parcela, refratária às políticas públicas e ao Estado, ainda que deles se beneficie.

A equipe do incumbente deve ser modificada. Em reunião com governadores eleitos, em Brasília, ele articula um meio de buscar a diferença de cerca de pouco mais de dois milhões de votos a menos que os obtidos pelo adversário, além de pelo menos outro cinco milhões de votos.

O garimpo entre os bolsonaristas é infrutífero. A consolidação do voto é fenômemo marcado desde o início da campanha. O alvo é a abstenção. Quase 34 milhões de eleitores não foram às urnas no primeiro turno. De acordo com os analistas, a maioria tem perfil de eleitor petista, idoso e de baixa renda. Mas é preciso convencer também os votantes do primeiro turno que definiram a eleição do governador de estados do nordeste, sobretudo.

Os primeiros movimentos dos assessores diretos de Lula são de ataque à biografia de Flávio Bolsonaro. Ainda que tenham gerado poucos resultados até aqui, os envolvimentos do senador em investigações sobre as organizações milicianas cariocas, rachadinhas na Assembleia do Rio de Janeiro e com o caso Master estão colocados na mesa.





Postar um comentário

0 Comentários