Angela Ro Ro estava internada desde junho em hospital do Rio com infecção pulmonar.
| Angela Ro Ro (reprodução) |
Angela Maria Diniz Gonsalves, a irreverente, genial e torturada Angela Ro Ro, partiu hoje (8/9), aos 75 anos.
Ato final de um drama repleto de excessos, talento bruto de expressão refinada da melancolia profunda que ela soube transformar em algumas das canções mais cruas e verdadeiras da música brasileira.
Angela foi a mais perfeita encarnação do "junkie" à carioca: uma alegria quase eufórica, solar, devoção ao excesso, ao desregramento e à entrega total aos prazeres e às dores que definiram sua existência.
Nascida no Rio de Janeiro em 1949, no seio de uma família abastada do Leblon, Angela escolheu um caminho de provação. Sua vida foi um vaivém constante entre o sublime palco do Canecão e a penumbra dos quartos de hotel e clínicas de reabilitação. A fama chegou cedo, com o estrondo de sucessos como “Amiga” e “Toca Raul”, mas a persona pública da artista grandalhona, de óculos escuros e humor ácido, escondia um vulcão de inseguranças e vícios que consumiram sua fortuna, sua saúde e, por vezes, a paciência daqueles que tentavam ajudá-la.
Sua obra é um diário aberto dessa luta. Em “Simplesmente”, ela cantava:
"Não quero mais você pra mim
Eu vou ficar sozinha
E cuidar de mim"
Um grito de independência que soava, ao mesmo tempo, como uma profecia de uma solidão autoimposta. A música era um manifesto de autossabotagem, uma declaração de que sua própria companhia, por mais destrutiva que fosse, era a única que ela realmente tolerava.
Mas foi em “Escândalo”, seu hino definitivo, que a persona encontrou sua expressão máxima.
"Eu quero é me acabar
Na cama, na bebida, na paixão
E em todo tipo de emoção forte"
Os versos não eram uma bravata, mas um projeto de vida exalado em voz rouca e potente do abismo aberto no peito aberto. Escândalo e a decadência em estado profundamente glamouroso e trágico.
Seus excessos não eram apenas etílicos ou químicos; eram emocionais, alimentares, financeiros. Angela vivia no extremo. A mesma artista que podia ser de uma lucidez assustadora em entrevistas, era também a que podia sumir por semanas em mergulhos autodestrutivos. A boêmia de Ipanema, que tanto celebrou, tinha um preço, e Angela pagou por décadas, com ágio.
Atrás do temperamento perturbador, no entanto, havia a compositora de sensibilidade aguçada. "A Vida Tem Dessas Coisas" mostrava uma Angela mais reflexiva, ponderando sobre as ironias do destino com uma sabedoria que só quem havia tocado o fundo do poço poderia ter. Era um vislumbre da lucidez que persistia mesmo no caos.
Angela Ro Ro foi uma das últimas grandes da espécie de seu tempo ainda vagante na orla da zona sul. A tragédia que flutua entre as mesas da calçada distribuindo sorrisos como uma florista.
A infecção levou-a a uma traqueostomia. Sua voz, áspera e cheia de histórias, calou-se, mas ecoa como um testamento de uma vida vivida sem rodeios, sem meios-termos, à carioca: com paixão, caos e uma beleza devastadora.
Como ela mesma previu, simplesmente se acabou.
0 Comentários