Copom reduz Selic a 14,50% e FOMC mantém taxa com Fed dividido

  Inflação elevada e incerteza com Oriente Médio norteiam decisões, mas insegurança política nos EUA gera maior cautela e crise entre economistas

Ilustração: Leloo The First



O Banco Central atendeu à expectativa do mercado com a segunda queda consecutiva de 0,25 ponto percentual. Embora o cenário externo conflituoso gere incertezas e a inflação não convirja por ora ao centro do meta no médio prazo, a projeção otimista de longo prazo sustentou a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom).

O Copom [...] entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

No comunicado em que afirma decisão unânime dos integrantes, o Comitê informa que acompanhará o desenrolar do cenário internacional e as consequências sobre os preços internos para avaliar os próximos movimentos em relação aos juros. 

Fed mantém juros entre 3,50% e 3,75% em decisão dividida

 O Federal Reserve dos Estados Unidos (Fed) decidiu manter o intervalo-alvo para a taxa dos fundos federais entre 3,50% e 3,75%, segundo comunicado oficial divulgado pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC). A decisão surge num contexto de inflação ainda acima da meta e de crescentes incertezas geopolíticas relacionadas com a evolução no Médio Oriente.

De acordo com a avaliação do Fed, indicadores recentes sugerem que a atividade econômica norte-americana tem se expandido a um ritmo sólido. No entanto, o cenário do mercado de trabalho mostra sinais de abrandamento: os ganhos de emprego permaneceram baixos, em média, embora a taxa de desemprego tenha registado pouca alteração nos últimos meses.

A inflação continua elevada, refletindo, em parte, o recente aumento nos preços globais da energia, fator que reforça a cautela do Fed na condução da política monetária.

Duplo mandato e riscos no horizonte

O Comitê reiterou que procura alcançar o emprego máximo e a inflação à taxa de 2% a longo prazo. Segundo o Fed, a evolução no Oriente Médio contribui para o nível elevado  de incerteza sobre as perspetivas econômicas, levando o organismo a manter-se atento aos riscos para ambos os lados do seu duplo mandato.

Em apoio aos seus objetivos, o FOMC optou pela manutenção do intervalo-alvo atual. Ao considerar a extensão e o momento de ajustes adicionais na faixa-alvo da taxa dos fundos federais, o Comitê avaliará cuidadosamente os dados recebidos, a evolução das perspetivas e o equilíbrio dos riscos. O Fed reafirmou estar "fortemente empenhado" em apoiar o emprego máximo e em devolver a inflação ao seu objetivo de 2%.

Monitoração contínua

Na avaliação da orientação adequada da política monetária, o Comitê continuará a monitorar as implicações da informação recebida para as perspetivas econômicas. Caso surjam riscos que possam impedir a consecução dos objetivos definidos, o FOMC declarou estar preparado para ajustar a direção de acordo com o contexto.

As avaliações terão em conta uma vasta gama de informações, incluindo leituras sobre as condições do mercado de trabalho, as pressões inflacionistas e as expectativas de inflação, bem como a evolução financeira e internacional.

Tensões internas

A decisão não foi unânime e expôs divisões no seio do Comitê. Votaram a favor da ação de política monetária Jerome H. Powell (presidente), John C. Williams (vice-presidente), Michael S. Barr, Michelle W. Bowman, Lisa D. Cook, Philip N. Jefferson, Anna Paulson e Christopher J. Waller.

Em sentido contrário votou Stephen I. Miran, que defendia uma redução da faixa-alvo para a taxa dos fundos federais em 0,25 ponto percentual nesta reunião.

Beth M. Hammack, Neel Kashkari e Lorie K. Logan apoiaram a manutenção da faixa-alvo, mas opuseram-se à inclusão de um viés de flexibilização na declaração neste momento. Eles estabeleceram um racha profundo sobre o rumo futuro da política monetária norte-americana.

A herança de Trump no Fed

A atual composição do FOMC, embora opere de forma independente, carrega o peso das indicações de diferentes administrações, com destaque para nomes selecionados durante a presidência de Donald Trump. Jerome H. Powell, o atual presidente da Reserva Federal que votou pela manutenção das taxas, foi originalmente escolhido por Trump em 2017 para liderar a instituição, tendo sido reconduzido posteriormente por Joe Biden.

Entre os demais votantes favoráveis à decisão, Michelle W. Bowman e Christopher J. Waller são também indicados diretos de Trump, representando uma ala que, historicamente, procura equilibrar a cautela monetária com a atenção ao crescimento econômico.

A maior surpresa da reunião veio de Stephen I. Miran, único a votar por uma redução imediata de 0,25 ponto percentual. Miran é frequentemente associado a círculos econômicos conservadores e atuou como conselheiro no Departamento do Tesouro durante a gestão Trump, o que torna a sua posição isolada em favor de um corte de juros um ponto de intenso debate entre analistas de mercado.

Embora a Reserva Federal tradicionalmente procure projetar uma imagem de unidade para garantir a estabilidade dos mercados, divisões desta magnitude não são inéditas, mas demonstram momentos de extrema incerteza econômica.

Historicamente, episódios marcantes de fragmentação ocorreram em 2019, ainda sob a presidência de Trump, quando o Fed enfrentou dissidências significativas num período em que o então presidente pressionava publicamente por cortes de juros. Naquela época, membros do Comitê dividiam-se entre a necessidade de estimular a economia ante as guerras comerciais e a manutenção de taxas para controlar riscos futuros.

Na década de 1990, sob a liderança de Alan Greenspan, o Comitê também registrou reuniões com múltiplos dissidentes, sobretudo em períodos de transição entre ciclos de aperto e flexibilização monetária.


Veja:

A íntegra do comunicado do Copom

A íntegra do comunicado do Fomc

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