O sucesso de uma das seleções mais completas em diversidade racial é a melhor resposta à Copa da discriminação
| Vini Jr. referência no combate ao racismo no futebol (reprodução/Fifa) |
Em minutos, a abertura oficial da Copa do Mundo de Futebol Masculino. O show, os EUA já começaram há dias. É um grande espetáculo em celebração dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. A Alemanha se preparara para mostrar ao mundo que os arianos eram superiores. No meio do caminho tinha o estadunidense Jesse Owens, e Hitler, trôpego, deixou o estádio onde, no mesmo 13 de junho, em 2006, o Brasil bateu a Croácia por 1 X 0 na primeira partida pela Copa.
Mais vinte anos e os Estados Unidos mudaram de lado. A discriminação espetacular humilhou os pretos jogadores senegaleses, currou os ingressos dos iranianos, proibindo a livre circulação de dirigentes e que o time pernoite no país. A equipe teve que correr a lojas para comprar uniforme e chuteira, pois o fornecedor, empresa norte-americana, foi ameaçada de sanções caso estivesse vinculada ao país, sob bombardeio. Eles fazem parte do “lixo”, como classificou Donald Trump parte do terceiro mundo, ao lado do árbitro Omar Artan, o somali literalmente barrado na entrada dos jogos.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, no papel do papa Pio XII, encena com o exagero barroco o líder religioso que se omitiu ao horror nazista. Infantino não se omitiu, capitulou sem rubor em nome do projeto narcísico da Copa com 48 seleções. A encenação da incapacidade de influir nas decisões do país soa canastrona, pois se trata da Fifa, aquela com poderes o bastante para criar passaporte especial.
Se era para evitar o confronto, o remanejamento de parte dos jogos em um ano não seria tão complicado na América. O Mercosul tem estádio e infraestrutura de sobra prontos. Infantino opta por fingir normalidade onde o ICE, o serviço de caça ao imigrante, foi reforçado pela Casa Branca nas áreas próximas aos estádios. Os ingressos, depois de artificialmente inflados, na tentativa de reduzir o prejuízo, despencam de valor.
A seleção brasileira passa ao largo do contexto. Integrante da elite da Copa, isca de volumosa massa de imigrantes ilegais e de sacoleiros abastados, não foi incomodada, ao menos por enquanto. Provavelmente não será até a desclassificação, entre as oitavas e as quartas de final, se não houver zebra. O leitor, após estas linhas, pode pensar que Ponto Incomum é pessimista sobre a seleção e negativo quanto ao evento. Se fosse, estaria, ao menos em parte, afinado com a população. Pesquisa do instituto Quaest registra que apenas 35% creem no Brasil campeão. Mas, não, seguimos o caminho Incomum.
O Brasil deve ser festejado, e, tomara, se torne o segundo time do resto do mundo. De Alisson a Vini Jr., a seleção brasileira é a mais vibrante manifestação da diversidade racial. Do branco ao preto, a equipe exibe a sofisticada mestiçagem do branco à carioca de um Paquetá e o tom cafuzo de Endrick, além dos traços originários de Casemiro e o amálgama diluído do tempo nos perfis de Marquinhos e Bruno Guimarães.
Vai, Brasil!
* Texto originalmente publicado em Ponto Incomum
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