Açúcar no espaço sugere origem cósmica para a vida

Descoberta publicada pela revista Nature fortalece tese de vida em outros pontos da Via Láctea 

Foto: Haris Irshad

Em um marco histórico para a astrobiologia, uma equipe internacional de cientistas anunciou a detecção da eritrulosa, um açúcar de quatro carbonos (C4), no meio interestelar (ISM). A descoberta, realizada na nuvem molecular G+0.693−0.027, localizada no Centro Galáctico, foi detalhada em um estudo publicado recentemente na revista Nature Astronomy.

Esta é a primeira vez que um açúcar é observado no meio interestelar, preenchendo uma lacuna crítica na nossa compreensão de como os blocos fundamentais da vida se formam no cosmos antes mesmo da criação de planetas.

Um Laboratório Químico nas Estrelas

A detecção foi possível graças a levantamentos espectrais ultra-sensíveis realizados com os radiotelescópios de Yebes (40m) e IRAM (30m). A eritrulosa é uma cetose quiral, uma característica essencial para os processos biológicos, e é a maior molécula não cíclica identificada no espaço até hoje, com 14 átomos em sua estrutura.

Até então, açúcares como ribose e glicose haviam sido encontrados apenas em meteoritos e no asteroide Bennu, sugerindo que esses compostos poderiam ter uma origem exógena. A presença de eritrulosa no espaço profundo confirma que o meio interestelar atua como uma "fábrica química eficiente", capaz de sintetizar açúcares complexos a partir de moléculas mais simples, como o glicolaldeído e o etilenoglicol, através de reações em grãos de poeira cósmica.

A Importância do CHONPS e a Receita da Vida

A vida, como a conhecemos, depende da combinação precisa de seis elementos químicos fundamentais, conhecidos pela sigla CHONPS: Carbono (C), Hidrogênio (H), Oxigênio (O), Nitrogênio (N), Fósforo (P) e Enxofre (S).

A descoberta da eritrulosa (composta por C, H e O) é vital porque os açúcares servem como combustíveis metabólicos e, crucialmente, como componentes da esinha dorsal dos ácidos nucleicos. No "inventário" cósmico de precursores da vida, os cientistas já detectaram em G+0.693 moléculas relacionadas ao nitrogênio (como a ureia) e ao fósforo (como o íon $PO^+$), elementos que, junto com os açúcares agora descobertos, formam a base para a criação de ribonucleotídeos.

Implicações para a Terra Primitiva

Os pesquisadores estimam que quantidades massivas de eritrulosa — entre 500 milhões e 50 bilhões de quilos — podem ter sido entregues à Terra por impactos de meteoritos durante o chamado Grande Bombardeio Tardio, há cerca de 4 bilhões de anos.

Uma vez na Terra, a eritrulosa pode isomerizar-se rapidamente em treose, um açúcar essencial para a formação do TNA (ácido nucleico de treose), provável precursor do RNA no cenário de origem da vida. Essa descoberta fortalece a teoria de que o "estoque" de açúcar necessário para o início da replicação biológica não surgiu apenas de reações na Terra jovem, mas foi importado do espaço profundo, sugerindo que as sementes da vida podem estar espalhadas por todo o universo.

(Com informações da Nature Astronomy)

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