A avaliar pela partida contra o Marrocos, cada um entendeu de maneira diferente as orientações do técnico. Só pode!
| Ilustração: Ponto Incomum/IA |
Que diacho de preleção houve no vestiário do Brasil antes da partida contra o Marrocos? Reconstruindo as últimas orientações e motivações após o jogo, imagino que o treinador, com seu superestrato ítalo-hispânico, tenha dito algo como “Ibañez, sin la bola, corra e van a covrir”.
O zagueiro improvisado na lateral direita, ao primeiro drible, disparou em direção a Vancouver. Não se teve mais notícia dele.
Só ruídos assim para entender a desorganização da equipe. O primeiro tempo foi pior, mas o segundo foi muito ruim. Guardado em lugar de honra os 7X1, a estreia nos EUA foi uma das piores partidas da seleção em copas.
“ Diez ocupem lo medio e tomem los passes de Moroco”, talvez tenha ordenado o mister, a fim de adiantar a marcação e ocupar a meia para facilitar a interceptação do jogo adversário, mas resultou no meio campo vazio e em passes diretos aos pés dos marroquinos. O que teria dito para que o lateral-direito Danilo fosse parar na meia esquerda sem a bola, sei não.
O nervosismo da estreia não pode ser desconsiderado, mas há limites. Em 1978, Brasil, com Zico, Nelinho, Reinaldo e Rivelino, empatou em 1 X 1 com a Suécia. O time se achou no meio da partida, era a famigerada retranca nórdica e o árbitro anulou o gol de Zico por interpretação do tempo de apito em basquete. A equipe atual, ao contrário, na primeira metade do jogo foi se desconjuntando mais e mais, até que, em desatenção incompreensível, Saibari marcou.
A escalação imprevista de Douglas Santos, Ibañez e Igor Thiago sugere intenção do técnico em guardar a melhor seleção para próxima fase. Mas ele superestimou o Brasil, já que declarara o óbvio, o Marrocos é um bom time.
Ao contrário da boa expectativa criada, a dupla Paquetá e Igor não funcionou. O atacante, na única oportunidade, imperdível, se perdeu no cabeceio. Como esperado, por outro lado, a seleção jogou torta para a esquerda. Raphinha não abriu à direita, teimava em fechar pelo meio e atrapalhar Igor. O desempenho do atacante do Barcelona mostra que a melhor posição para ele é ao lado de Neymar, no banco.
Ao menos Vini Jr. fez o que dele se esperava. Incomodou a zaga e selou o empate. No duelo preconizado contra o lateral Hakimi, ganhou uma e perdeu o resto. Quando chegou ao fundo ou invadiu a área, não teve com quem jogar. O talento do atacante é inquestionável. Mas Vini não cresce com a bola nos pés, como os grandes fora de série. Endrick, sim.
Se a ideia é preservar o reserva para o mata-mata, faz muito bem Ancelotti. Se precisarmos de Endrick para vencer o Haiti, “ritorna a casa, Carletto”. Para não queimar a autoconfiança, Igor, quem sabe, no segundo tempo. Rayan precisa de espaço neste time.
O ouvido anglo-espanhol de Casemiro parece não decodificar o francês de Marquinhos. O desentendimento entre eles é de frequência dolorosa. O predileto do técnico pode ceder o lugar para Fabinho. Bruno Guimarães, trocado por Danilo Santos, dá mais energia e criatividade no meio-campo.
As modificações, sejam quais, forem, pedem treino. “Entrenamiento, allenamento, Carletto!” E, em nome da torcida verde-amarela, capricha na preleção, “esmérate, sforzati”, “pelamor Dideus”!
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