Há uma grande sacada no pronunciamento da presidenta Dilma: se posicionar no mesmo nível dos manifestantes, ou, como tem se falado, se expressado horizontalmente. Propositadamente ou não, a linguagem criou clima de proximidade com os manifestantes e, mais que as palavras, reforçou o compromisso com a democracia.
O texto difuso e superficial foi tal e qual as expressões
das ruas e das redes sociais, o que causou, ironicamente, uma certa frustração
de quem esperava alguma grande decisão. A reação é típica da classe acostumada a esperar que ajam por ela.
A bem da verdade, não há uma grande decisão a ser tomada
pela presidenta, a menos que resolvesse pegar o boné e deixar o cargo, o que
não há a menor razão de ser.
A grita geral é uma energia acumulada há muito, com
vazamentos esporádicos como o índice de abstenção nas urnas especialmente nas
grandes capitais. As respostas a elas também exigem tempo maior do que já teve
a mandatária no cargo.
A classe média, majoritariamente conservadora, tem crescido apesar de abandonada nas
administrações municipais, estaduais e federais
desde o início do plano real.
Toda a política tem priorizado as duas pontas da pirâmide
social, sobrando para o meio os custos de projetos e investimentos.
À classe média coube nos últimos 20 anos o percentual maior
dos aumentos de impostos e dos preços de serviços privatizados de baixa
qualidade.
É pioneira dos nos planos de saúde, telefonia celular, tv à
cabo, internet, equipamentos domésticos, automóveis, etc...
É por isso mesmo também a maior usuária dos mecanismos de
proteção do consumidor, ineficientes e lentas como todo o Poder Judiciário.
A surdez dos governantes mais diretamente ligados a seus
anseios cotidianos é estridente. Da organização da mobilidade urbana à
sacolinha nos supermercados, é quem mais apanha.
Esta camada da
população tem sido negligenciada e mal interpretada por estrategistas
políticos, que os veem apenas sob o ângulo comportamental e somente durante o
período eleitoral.
Sufocada há muito, no entanto, se articulou apressadamente,
como tudo que se dá via tecnologia da informação. No processo, a parcela
conservadora da sociedade não teve de tempo de se livrar de um entulho
autoritário.
O poder executivo não tem mais a autonomia dos tempos do
regime militar. Muito da insatisfação é
gerada no poder legislativo, mas os insatisfeitos não se deram conta, ainda que
a imagem pública do Congresso Nacional esteja abaixo do limite necessário para
impedir a proliferação de ideias antidemocráticas.
A corrupção, a má qualidade dos serviços sociais e o descaso
país afora passam inevitavelmente pelas mãos de deputados e senadores, caciques
poderosos em seus redutos geográficos e no Palácio do Planalto, graças ao
sistema híbrido estabelecido pela Constituição.
As manifestações sociais podem gerar frutos significativos e
perenes se estiverem centradas nas articulações políticas, na agenda e nas
propostas que correm entre os corredores do Congresso.
Focar a fúria legítima no Executivo é desperdício da energia
acumulada em prol dos objetivos gerais vistos nos cartazes, além de servir a
interesses de oportunistas ideológicos e grupos econômicos habituados a tratar
de suas questões diretamente com parlamentares através do lobby e do financiamento de campanhas eleitorais.
Fenômeno social recente, a organização da classe média deve
alcançar vitórias expressivas quando souber se livrar da condição de massa de
manobra. De acesso a meios de
comunicação às boas escolas, ferramentas para isso possui.
Precisa é se esforçar um pouco mais na compreensão da
máquina da política e ganhar traquejo.
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