Dente-de-Leite, assim se escrevia na transição do capotão
para a bola de plástico. Grande sacada. Tinha
as mesmas dimensões e peso da bola oficial e corria bem na lama fina que
inutilizava de manchas avermelhadas o uniforme.
Eram a escola e a bola, e a curiosidade sobre o futuro
daqueles já quase adultos. Suas roupas não combinavam em nada com os trajes dos
pais nem com as camisetas que ganhávamos dos padrinhos. Elas, muito estampadas,
de cabeleiras desalinhadas, sem sutiã e pisavam com firmeza inédita em
sandálias de tiras finas de couro. Os caras, não menos coloridos e cabeludos,
também de pulseiras e cordões de couro em quantidade a afrontar a Dente-de-Leite.
A questão me ocupava aos sábados, início de tarde, antes da
pelada, em frente à tv. Preferia os desenhos do Pernalonga, mas não perdia
aquele programa musical. Lá estavam, fazendo rock´n roll.
Que tipo de pais,
avós, seriam, dançando e se vestindo daquele jeito, falando de paz e amor,
liberdade, preservação de meio ambiente. Como seriam na velhice?
A Dente-de-Leite sucumbiu. As posteriores perderam peso e
circunferência. O plástico virou praga, mas a comunidade da bolsa à tiracolo
venceu. Todo o establishment foi atrás
dela.
A contracultura migrou para o entretenimento, o mundo mudou,
mas boa parte das incertezas de agora diz respeito diretamente a ela, como a
longevidade e o recrudescimento da caretice. A evolução deslocou para frente o
papel de vanguarda que cabia à juventude. Para nossa sorte, pois é a geração mais
credenciada para rejuntar os conflitos segmentados que mais parecem briga de rua
em movimento de profundidade existencial.
Quem está acima dos 60 anos é condenado a seguir
liderando a quebra de paradigmas, nos deve a obrigação de não envelhecer como
seus pais.
Ei, velhinho, se
ainda não se deu conta, só você sabe como abrir novas picadas no meio desta
mata cheia de armadilhas! Estamos esperando nos dizer o que e como fazer para
não deformarmos feito plástico.