Ministro se reúne com Cláudio Castro no Palácio da Guanabara entre protestos populares

 Governador do Rio considera sucesso operação dada como inócua por maioria de especialistas e alimenta cizânia ideológica com governo federal

Protesto no Complexo do Alemão (Tânia Rêgo/ Ag. Brasil)

Agentes oficiais e moradores da região conflagrada ainda recolhem corpos do confronto no Rio. Há relatos de mortos decapitados, com mãos amarradas e marcas de tiros na nuca e facadas.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, acompanhado do Diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, foram ao estado para reunião com o governador Cláudio Castro.


A Operação Contenção, realizada pelo governo do Rio de Janeiro nos complexos do Alemão e da Penha, tornou-se oficialmente a ação policial mais letal da história do Brasil. Segundo balanço apresentado pelo governo estadual, 119 pessoas morreram — quatro policiais e 115 suspeitos. O número supera até mesmo o recorde anterior, do massacre do Carandiru, em 1992, que deixou 111 mortos.


Mobilizando 2,5 mil policiais civis e militares, a operação tinha como objetivo capturar as principais lideranças criminosas e conter a expansão territorial do Comando Vermelho. No entanto, nenhum dos cabeças da facção foi preso. Por isso, especialistas em segurança pública consideram a ação inócua, apesar do governo estadual apresentar números de apreensões: 81 presos, 72 fuzis e grande quantidade de drogas ainda em contabilização.


Números contraditórios e corpos na mata


A contabilização das mortes gerou confusão. Na terça-feira (28/10), o governo anunciou 64 mortos. No dia seguinte, o secretário da Polícia Civil, Felipe Curi, atualizou o número para 121, revelando que 63 corpos haviam sido "achados na mata" até o fim da manhã de quarta. Moradores da Penha relataram ter encontrado 74 corpos na área de mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia. O governador Cláudio Castro não esclareceu a razão da alteração nos números.

O governo estadual afirma que a possibilidade de haver inocentes mortos é praticamente nula. Seria “residual”, de acordo com Castro. A operação conduziu os suspeitos em direção à mata entre os dois complexos, onde não haveria moradores. Lá, as forças policiais encurralaram os ocupantes da região.


Crise política e esclarecimentos


A operação provocou uma crise entre os governos estadual e federal. O governador Cláudio Castro acusou o governo federal de negar apoio e de deixar o Rio "sozinho nesta guerra", cobrando o uso das Forças Armadas no combate ao crime organizado.


O ministro Ricardo Lewandowski rebateu as acusações, afirmando que não recebeu nenhum pedido de apoio de Castro e que nenhum pedido foi negado. Lewandowski qualificou a operação de "cruenta" devido às mortes de agentes de segurança e de inocentes. Segundo ele, para que seja decretada uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), os governadores devem reconhecer a falência dos órgãos de segurança estaduais.

Nesta quarta-feira (29/10), Castro voltou a se pronunciar, afirmando que o governo do Rio "não vai ficar chorando por ajuda do governo federal". Segundo o governador, "quem quiser somar com o Rio no combate à criminalidade é bem-vindo. Os outros, sumam".

Governadores de direita, como Ronaldo Caiado, de Goiás, e Romeu Zema, de Minas Gerais, acusam o governo federal de omissão e prometeram apoio a Castro.


MPF e Defensoria Pública


A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União encaminharam ofício ao governador solicitando que "informe detalhadamente de que forma o direito à segurança pública foi promovido" na operação.


O MPF quer explicações sobre as finalidades da operação, os custos envolvidos e a comprovação da inexistência de outros meios menos gravosos para atingir os mesmos objetivos. Especificamente, o órgão cobra documentação comprobatória de que o governo estadual acatou decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre operações policiais, incluindo:


- Prévia definição do grau de força adequado e justificativa formal da operação;

- Atuação dos órgãos periciais para realização de perícia;

- Uso de câmeras corporais e nas viaturas;

- Existência e apresentação ao público de relatório detalhado da operação.


A Procuradoria-Geral da República (PGR) informou ao STF que aguarda o recebimento de informações do governo fluminense para avaliar se solicitará alguma medida judicial. O ministro Alexandre de Moraes pediu parecer da PGR sobre pedido do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) para que o governador preste informações.


Retaliação e impacto na cidade


Em retaliação à operação, criminosos interditaram 35 ruas em diversos pontos da cidade, com veículos atravessados, latões de lixo, barricadas e materiais em chamas. Para especialistas em segurança pública, a operação gerou grande impacto na capital fluminense, mas não atingiu o objetivo de conter o crime organizado. Pelo contrário: ações como essa apenas fortalecem a violência, segundo analistas.

Nesta quarta-feira (29/10) a cidade do Rio de Janeiro teve movimento de feriado. A segurança foi reforçada nas ruas e avenidas. Um grupo de motoqueiros articulou um protesto na sede do governo. 


Atualização:  


Ao fim da reunião, o ministro e o governador concederam entrevista coletiva, quando anunciaram um plano de ação conjunta contra o crime organizado.

De acordo com Lewandowski, serão deslocados para o estado peritos criminais para apuração do ocorrido e identificação dos corpos, além de especialistas em balística. A Força Nacional de Segurança, no RJ desde 2023, será reforçada, bem como o contingente da Polícia Federal.

Atuarão ainda no combate ao crime, de acordo com o ministro, agentes fazendários e o Coaf - Conselho de Controle de Atividades Financeiras. A Polícia Rodoviária Federal será reforçada no policiamento das rodovias federais próximas ao Rio.

Foram oferecidas ao governo do Rio vagas nos presídios de segurança máxima do país, para onde podem ser levados os presos na operação ou serem deslocados criminosos já encarcerados. 

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