O criador do Clube da Esquina se foi.
| Ilustração: Lívio Lamarca |
Quando Alberto Nepomuceno escandalizou o Rio de Janeiro colocando reco-reco no Teatro Municipal, o brugurundum dos tambores já cortejava a música sacra nas portas das igrejas mineiras.
Naquela serra, a casinha de palha no sertão inspira um chorinho.
Lô Borges é fruto desta terra, de conexão atávica entre os mundos, mesmo que em sua época o telegrama fosse o meio mais usual de comunicação à distância.
O rock ingênuo da primeira fase dos Beatles chegou rodando nas vitrolas de Beagá como nas de Sampaulo. No planalto paulista foi aquele iê-iê-iê. Nos arredores da Praça da Estação, brincadeira de menino.
Um deles, criativo “pra daná”, brincou de juntar os amigos por ali e chamar de clube. Era o mais novo, muito mais que os irmãos e os colegas. Nem tão bom letrista como Ronaldo ou Fernando, nem guitarrista virtuoso como Toninho, ou arranjador como o Tiso. Era mais atrevido. Para cantar perto do Bituca, tinha que ter coragem.
- Cê é fi de quem?
- Da liberdade.
- Lembra o sonho...
- Tem uns beatles na família, mes...
A vantagem era fazer um “pouquim” disso tudo, e muito bem. Tão bem, tão bem, que Bituca, logo que despontou, fez com Lô o que Nepomuceno fez com o quase tão jovem Heitor Villa-Lobos.
– Olhem, prestem atenção, este menino é muito bom!
Um tanto de insistência, até que lhes dessem atenção. Não deve haver quem não conheça “Trenzinho Caipira”. Nem “O Trem Azul”.
O que um “antropofazia”, o outro “antropofagocitou”.
De tudo se faz canção
Explosivos no volume da criação, na sofisticação, na capacidade levar esta mistura ao gosto popular.
Lô soltou no mundo o som influente até hoje. Grande menino de notas certas em frases curtas.
De exagero, os medicamentos que o intoxicaram, informou no domingo (2/11) o hospital onde esteve internado por cerca de uma semana, em Belo Horizonte.
Quem vai contar pro Bituca?
| Lô e Bituca (reprodução/web) |
Não esqueceremos de sorrir, como você tentou sorrir, quando alguém lembrar o que você foi, o que é, o que sabe.
(Texto publicado originalmente em Lívio Lamarca-Ponto Incomum)
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