Poderes e instituições devem rever facilidade com que se deixam envolver por "jeitinho" do andar de cima de burlar leis
| Foto: Francesco Ungaro |
O corte perfeito no tecido fino do costume revela mais que a fina gravata e o relógio dourado. Os acessórios passariam por falsos, imitações são comuns por ali. A veste ostenta um membro da elite. É manhã, mas ele está perfumado como novo-rico em encontro amoroso. A mulher de juventude empanada em tailleur vulgar o interpela com sorriso largo, olhos nos olhos.
– Bom dia, parlamentar! Pode assinar este pedido de encaminhamento do PL?
Não interessa o tema, ou o autor. Estas questões são resolvidas em plenário. O sorriso canastrão se estende, ela se faz de encantada. Cheio de si, ele está pronto para começar o dia.
No palácio, o movimento começou mais cedo. Palácio é o nome oficial do local onde são discutidas as nomeações, e as avaliações técnicas são adaptadas às circunstâncias políticas.
Cerca de três horas depois os mordomos abrirão as portas dos carros no lado oposto da praça. A maioria dos magistrados está fora, em palestras na Europa para um público doméstico.
Todo este movimento é agendado, organizado, monitorado e patrocinado pela iniciativa privada regada a recursos públicos drenados por este mecanismo. Entre os patrocinadores, vê-se agora, o muito competente Daniel Vorcaro.
O sistema não é novidade, é conhecido, mas nunca fora desnudado como agora. Parece depender da conivência de todos os envolvidos, e engendrado como plano de chantagem e pressão, caso a bajulação e as gentilezas não garantam o bom andamento dos objetivos principais.
A prevalência da avaliação técnica dos funcionários do Banco Central derrubou a primeira peça da linha encarreirada de ameaças. A competência de Vorcaro subjugou os poderes e rebaixou a segundo plano uma das maiores fraudes do sistema financeiro nacional.
As mais recentes revelações tinham octanagem para abalar a disparada eleitoral quando o governo estava pronto para colher bons resultados econômicos e sociais.
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