Intercept Brasil revela mensagens e documentos que mostram repasse de pelo menos R$ 61 milhões por Daniel Vorcaro para produção de "Dark Horse", filme biográfico sobre Jair Bolsonaro
Os registros mostram que o primeiro contato registrado ocorreu em 8 de dezembro de 2024, quando o empresário Thiago Miranda organizou um encontro entre Flávio e Vorcaro em Brasília. Apenas oito dias depois, em 16 de novembro de 2025, Flávio enviou uma mensagem ao banqueiro dizendo: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!"
A situação ganhou gravidade quando, um dia após essa mensagem, Vorcaro foi preso enquanto tentava fugir do país. O banqueiro é acusado de operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). No dia seguinte, 18 de novembro, seu banco foi liquidado pelo Banco Central.
Rede de Intermediários
Os documentos revelam que a negociação contou com a participação de outros membros da família Bolsonaro e aliados políticos. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e deputado federal cassado pelo PL de São Paulo, e Mário Frias, também deputado federal pelo PL paulista e ex-secretário da Cultura no governo Bolsonaro, atuaram como intermediários na operação.
As mensagens indicam que os pagamentos foram canalizados através da empresa Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. O empresário Thiago Miranda, fundador do Portal Leo Dias, também participou ativamente das negociações, mantendo contato direto com ambas as partes.
Pressões e Cobranças
A correspondência revela intensas cobranças de Flávio Bolsonaro a Vorcaro para o cumprimento dos pagamentos. Em áudio enviado em 8 de setembro de 2025, o senador alertava sobre o risco de atraso nos pagamentos a profissionais internacionais, mencionando especificamente o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh: "Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim".
Mais tarde, em 7 de novembro, após enviar um vídeo de visualização única a Vorcaro, Flávio escreveu: "Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc".
Negativas e Investigações
Quando questionado presencialmente pelo Intercept Brasil em 13 de novembro de 2025, próximo ao Supremo Tribunal Federal, Flávio Bolsonaro negou as acusações: "De onde você tirou essa informação? É mentira". O senador posteriormente se recusou a comentar o assunto.
Em nota enviada à reportagem, a defesa de Mario Frias confirmou os contatos com Vorcaro, porém argumentou que as mensagens "refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa". A defesa ainda negou que Frias exercesse papel de articulador político ou financeiro.
Flávio Bolsonaro, que é pré-candidato à Presidência da República, havia negado anteriormente qualquer conexão com Vorcaro. Em março de 2025, ao ser questionado pela CNN sobre uma doação de R$ 3 milhões feita pelo cunhado do banqueiro à campanha presidencial de Jair Bolsonaro, afirmou que ocorreu "sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive".
Flávio responde com ataque à Lei Rouanet
| Flávio em defesa, nas redes (reprodução/X) |
Em resposta às revelações do Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro se manifestou através de nota na qual confirmou os diálogos. Segundo o senador, o que ocorreu foi
"um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet".
O senador afirmou que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, "quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro". Flávio reiterou que "não ofereci vantagens em troca", "não intermediei negócios com o governo" e "não recebi dinheiro ou qualquer vantagem".
Depois de uma reunião de emergência convocada pelo pré-candidato na sede da campanha, em Brasília, ele se manifestou por suas contas nas redes sociais.
Documentação Comprobatória
O Intercept Brasil obtém comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de dólares datada de 14 de fevereiro de 2025, além de um cronograma de desembolsos indicando seis parcelas somando 10,6 milhões de dólares entre janeiro e maio de 2025. Os documentos mostram que apenas a primeira parcela e as demais transferências confirmadas foram realizadas, sem evidências de que os outros oito pagamentos previstos tenham sido efetivados.
O caso continua sob investigação, com questionamentos ainda abertos sobre a origem dos recursos utilizados no financiamento da produção cinematográfica e as implicações das negociações entre membros da família Bolsonaro e um banqueiro acusado de crimes financeiros graves.
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