Flávio Bolsonaro pediu financiamento de filme a dono do banco Master

Intercept Brasil revela mensagens e documentos que mostram repasse de pelo menos R$ 61 milhões por Daniel Vorcaro para produção de "Dark Horse", filme biográfico sobre Jair Bolsonaro

Cartaz de "Dark Horse" (reprodução/Wikipédia)


Mensagens de WhatsApp e documentos financeiros obtidos com exclusividade pelo site Intercept Brasil revelam uma negociação direta entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção do filme "Dark Horse", biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a investigação jornalística, Vorcaro se comprometeu a repassar 24 milhões de dólares para o projeto cinematográfico, dos quais pelo menos 10,6 milhões de dólares (aproximadamente R$ 61 milhões) foram comprovadamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025.

Os registros mostram que o primeiro contato registrado ocorreu em 8 de dezembro de 2024, quando o empresário Thiago Miranda organizou um encontro entre Flávio e Vorcaro em Brasília. Apenas oito dias depois, em 16 de novembro de 2025, Flávio enviou uma mensagem ao banqueiro dizendo: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!"

A situação ganhou gravidade quando, um dia após essa mensagem, Vorcaro foi preso enquanto tentava fugir do país. O banqueiro é acusado de operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). No dia seguinte, 18 de novembro, seu banco foi liquidado pelo Banco Central.


Rede de Intermediários

Os documentos revelam que a negociação contou com a participação de outros membros da família Bolsonaro e aliados políticos. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e deputado federal cassado pelo PL de São Paulo, e Mário Frias, também deputado federal pelo PL paulista e ex-secretário da Cultura no governo Bolsonaro, atuaram como intermediários na operação.

As mensagens indicam que os pagamentos foram canalizados através da empresa Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. O empresário Thiago Miranda, fundador do Portal Leo Dias, também participou ativamente das negociações, mantendo contato direto com ambas as partes.


 Pressões e Cobranças

A correspondência revela intensas cobranças de Flávio Bolsonaro a Vorcaro para o cumprimento dos pagamentos. Em áudio enviado em 8 de setembro de 2025, o senador alertava sobre o risco de atraso nos pagamentos a profissionais internacionais, mencionando especificamente o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh: "Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim".

Mais tarde, em 7 de novembro, após enviar um vídeo de visualização única a Vorcaro, Flávio escreveu: "Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc".


 Negativas e Investigações

Quando questionado presencialmente pelo Intercept Brasil em 13 de novembro de 2025, próximo ao Supremo Tribunal Federal, Flávio Bolsonaro negou as acusações: "De onde você tirou essa informação? É mentira". O senador posteriormente se recusou a comentar o assunto.

Em nota enviada à reportagem, a defesa de Mario Frias confirmou os contatos com Vorcaro, porém argumentou que as mensagens "refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa". A defesa ainda negou que Frias exercesse papel de articulador político ou financeiro.

Flávio Bolsonaro, que é pré-candidato à Presidência da República, havia negado anteriormente qualquer conexão com Vorcaro. Em março de 2025, ao ser questionado pela CNN sobre uma doação de R$ 3 milhões feita pelo cunhado do banqueiro à campanha presidencial de Jair Bolsonaro, afirmou que ocorreu "sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive".


Flávio responde com ataque à Lei Rouanet

Flávio em defesa, nas redes (reprodução/X)

Em resposta às revelações do Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro se manifestou através de nota na qual confirmou os diálogos. Segundo o senador, o que ocorreu foi

 "um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet".

O senador afirmou que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, "quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro". Flávio reiterou que "não ofereci vantagens em troca", "não intermediei negócios com o governo" e "não recebi dinheiro ou qualquer vantagem".

Depois de uma reunião de emergência convocada pelo pré-candidato na sede da campanha, em Brasília, ele se manifestou por suas contas nas redes sociais.


Documentação Comprobatória

O Intercept Brasil obtém comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de dólares datada de 14 de fevereiro de 2025, além de um cronograma de desembolsos indicando seis parcelas somando 10,6 milhões de dólares entre janeiro e maio de 2025. Os documentos mostram que apenas a primeira parcela e as demais transferências confirmadas foram realizadas, sem evidências de que os outros oito pagamentos previstos tenham sido efetivados.

O caso continua sob investigação, com questionamentos ainda abertos sobre a origem dos recursos utilizados no financiamento da produção cinematográfica e as implicações das negociações entre membros da família Bolsonaro e um banqueiro acusado de crimes financeiros graves.

 Pré-candidatos à direita atacam Flávio Bolsonaro

A proximidade de Flávio com Vorcaro gerou críticas fortes de concorrentes do mesmo campo político na eleição presidencial. 
Romeu Zema, do Novo,  publicou vídeo em suas redes sociais considerando "imperdoável" o pedido de verbas ao acusado de golpe de R$ 47 bilhões.
Ronaldo Caiado, do União Brasil, também pelas redes, exigiu apuração rigorosa sobre tudo o que envolve o banco Master.
O mercado financeiro, para quem não tem bola perdida, aproveitou para especular. O dólar subiu a R$ 5,03 no fechamento.
O Ibovespa, na inércia dos efeitos da guerra sobre o preço interno dos combustíveis, caiu 1,77%.


 

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